7.2.10

O jeito certo de ouvir músicas de jogos

... Daí vai vir o Glauber e colocar música de jogo, aquelas músicas pacatas que só ele gosta.


Não que eu tenha me ofendido, mas é verdade, poucas pessoas gostam de verdade a ponto de ficar ouvindo direto, de ir atrás ouvir até mesmo antes do jogo lançar (quando você sabe que o jogo é bom, claro), de digitar "game music" no Shoutcast e... Você entendeu.

Não pense errado, eu também ouço músicas "normais" como você... Mas o que aconteceu é que eu fiquei pensando no assunto... Por que eu gosto tanto de ouvir essas músicas? E porque as demais pessoas, por mais que a composição, o arranjo e a execução delas sejam geniais, não curtem tanto quanto? Sério, alguns compositores são tão bons que é meio difícil de entender porque são menosprezados por nós, pelo menos nós ocidentais, e nossa mídia popular.

O motivo mais óbvio e o primeiro que me veio à mente - e provavelmente à sua também - é o tipo de relacionamento que as pessoas tem com jogos. Algumas simplesmente não gostam ou não costumam jogar, e isso já explica muita coisa como lembrar só o tema do Mario ou do Sonic, pouparei-me.
Outras, por mais que joguem, estão rodeadas de pessoas que não tem o mesmo costume, então se essa pessoa vira e fala "ouve essa música do Street Fighter, muito boa!" há grandes chances dela receber apenas um "legal..." broxante como resposta, logo, num aspecto social, acredito eu que ela vai preferir ouvir MAIS músicas da mídia popular para interagir melhor. Afinal, você já pegou uma mina dançando o remix do Bionic Commando? Se bem que, modéstia à parte, eu... Enfim, retomemos.

Mas pensar assim é pensar superficialmente. Com a ajuda de um "Top músicas do Mega Man" que vi por aí um dia, cujo autor comenta cada uma delas, notei que há um motivo muito maior escondido atrás dessas questões sociais: o PROPÓSITO das músicas.


"Propósito, Sr. Anderson."


Todos os músicos normais tem o mesmo propósito, pelo menos é o que se espera: atingir pessoas a ponto delas cantarem ou dançarem no ritmo, de despertar sentimentos que somente a música - unida a outros fatores como um coletivo de pessoas, ou um show "pirotécnico", ou uma história etc. - consegue. É, em poucas palavras, a mágica de conquistar pelas vibrações sonoras.

Mas e o propósito das músicas dos jogos? Bem, a maioria delas tem um propósito distinto, que por sua função acaba tendo um impacto diferente: ambientar o jogador. A música - ou a ausência dela - é o que complementa os gráficos visuais, a jogabilidade e, em alguns casos, o momento do enredo do jogo. É dela a função de colocar a cereja no bolo: você está numa floresta densa num jogo de plataforma, sua missão é solitária mas você sabe que é capaz. E você ouve isso:



Músicas de jogos ajudam a justificar a situação, criando mais imersão, mais diversão, mais motivação. Elas precisam se associar às coisas certas, ao que foi determinado pelos autores do jogo, não pelo compositor. As músicas "normais" não, elas são criadas na esperança de que as pessoas façam suas próprias associações, sejam elas algum momento da sua vida, da sua festa, de entes queridos, de sua personalidade ou até mesmo atributos físicos.

Mas quem disse que isso exclui as músicas de jogos? Assim como as músicas "normais", elas também criam associação entre elas e o ouvinte, no caso, jogador. Aquele momento em que você não consegue passar da fase, ou porque é uma parte demorada mesmo, ou é algo recorrente - batalhas de chefe - impregna a música por bem ou por mal na nossa memória, e posteriormente vai nos lembrar da EXPERIÊNCIA que tivemos. Por isso músicas que embalam experiências únicas ou momentos únicos do jogo são lembradas com afeto pelos jogadores. Não é à toa que um dos momentos mais marcantes do primeiro Half Life possua uma música que hoje é vinheta do logo da empresa criadora, VALVe.

Algumas observações minhas tem me levado a outro ponto mais peculiar: a aceitação das músicas são proporcionais a quão facilmente elas são entendidas/quão evidentes elas são ao que se relacionam. Isso torna a associação mais fácil. Seja pelo sentimento (músicas que remetem ao medo) ou pela proximidade de um gênero mais "normal" (músicas eletrônicas ou heavy metal, por exemplo).

Com essas coisas em mente, trago alguns exemplos para esclarecer isso melhor. Se quiser pode pular direto para minha conclusão, mas recomendo ouvir.
E para fortalecer meu pensamento, usarei apenas um jogo, as músicas de Mega man X4, por ser mais digerível pelas massas e também por ser minha especialidade , mas tudo que eu digo se aplica na maioria dos casos.
Seguindo a opinião do meu amigo da citação acima, eu mesmo achava algumas músicas do jogo meio pacatas, com pouca variação ou uma melodia cativante, nem mesmo "chiclete" como dizem alguns (aquelas que você cantarola e ficam na sua cabeça o resto do dia/semana/mês/vida). Uma delas é a primeira fase do personagem X:


Pacato de verdade. Mas qual o contexto dessa música? Bom, estamos na quarta iteração do enredo, X é o tipo de herói que questiona se lutar contra o mal é a melhor solução para acabar com a guerra, mas como soldado, ele deve cumprir seu papel, o que o deixa confuso, mas sem perder as esperanças. É a quarta vez que ele passa por isso. Se você parar para ouvir e pensar, essa música passa esse sentimento melancólico, de cumprir com uma obrigação que ao mesmo tempo que salva muitos, sacrifica outros. O tema do outro protagonista, Zero, tem outra atmosfera:


É muito mais agitada, certo? Porque Zero é um "foda-se ambulante". É o anti-herói da série, de alta patente dentro do grupo que luta do lado do bem - mais importante inclusive que o próprio X - que primeiro corta ao meio e depois pergunta. Não só isso mas Mega Man X4 é o título onde o centro da história é de fato o Zero, o cara descolado, o cara legal de se jogar.

E já que falamos em experiências únicas, as que você ouve enquanto joga alguma parte envolvente do jogo - lembra? Jogos são mídia interativa, aquele papo de sempre - falemos de Jet Stingray. Muita gente ADORA essa música (como eu) porque ela traz boas lembranças. É uma fase onde a jogabilidade é um pouco diferente e interessante: você usa uma moto que corre MUITO, que dilacera quem estiver pela frente, e as coisas não páram de passar por você. Fica com medo porque está muito veloz e tem medo que morra com uma batida num obstáculo que não deu pra ver. O fim da primeira parte acaba com você fugindo de explosões. E a segunda parte é ao ar livre, água voando pelos lados do seu veículo e o próprio Jet Stingray o acompanha na mesma velocidade. Assista e tente entender. Eu preferiria que você jogasse isso, mas talvez seja pedir demais:


E tem uma música no X4, que se você mostrar para qualquer pessoa sem falar donde é, provavelmente ela goste, no mínimo reconheça que tem tudo a ver com MEDO, pois sua composição remete muito a isso - e convenhamos, músicas medonhas são difíceis de mudar. Não só isso, mas ela se aproxima muito a um filho bastardo de trash e heavy metal, dando uma cara não só de medo, mas desespero e tensão.


CONCLUSÃO: Eu gosto de músicas de jogos porque elas me fazem lembrar dos jogos que eu mais gostei ou no mínimo me trouxeram experiências. E por consequência meu ouvido para composições que seguem tal propósito é mais aguçado e mais aceptivo. E como nem todos tiveram as mesmas experiências que eu, nem todos vão apreciar como eu. Eu respeito isso. Respeite-me quando eu disser que gosto de músicas de jogos, pelo menos não as subestime.

Recomendações pros não-ouvintes: Donkey Kong Country 2, Chrono Cross, Bionic Commando: Rearmed, Shadow of The Colossus, e, se tiver um saquinho bom, Mega Man X5. Confie em mim, elas não são uma merda :)


... E só pra finalizar, eu até twittei isso: essa música... ESSA MÚSICA é que me traz melhores lembranças. Só quem jogou sabe o que é o desespero de ter que fugir de uma horda interminável de zumbis, correndo, pulando, puxando, vomitando e esmagando, confiando apenas nos seus três amigos. É o ápice do que eu sinto quando ouço alguma música: