17.10.09

Jogos experimentais: Blueberry Garden e a maldição dos jogos Indie

A maioria deve conhecer Braid. Ou World of Goo. Ou Audiosurf. Ou Aquaria. Ou Gish. Ou Crayon Phisics. E quem conhece sabe que esses jogos, mesmo não sendo adeptos da mecânica ou da temática, são jogos de qualidade, ou seja, são divertidos, são visualmente cativantes e funcionam. E o mais importante: são jogos Indie.



Que de acordo com algumas definições, são jogos feitos com o intuito de entregar uma experiência diferenciada e inovadora ao invés de apenas divertir e esperar lucro em retorno. O que acarreta em outros fatores, como número de desenvolvedores, estabilidade financeira da empresa, estilo visual e assim vai.

É um ramo em que muita coisa acontece, onde muita gente se acha desenvolvedor de jogos, onde aparecem as melhores oportunidades, onde pode-se cair no esquecimento... Enfim, acontece muita coisa nele, e é por isso que me sinto meio receoso de fazer alguma crítica pesada, já que não sou total conhecedor, mas apenas adepto (já que até eu experimentando de vez em quando #marketing).

Porém... Tem uma coisa que eu não entendo, e é uma característica mais geral: por que a insistência da experiência em detrimento da diversão? Se você conhece alguns dos jogos que eu listei logo no começo, você sabe que eles, além de inovadores e de entregarem um conteúdo diferenciado, são divertidos de acordo com seu público-alvo. Mas o que acontece com jogos como Blueberry Garden e The Path? Falo desses porque são os mais famosinhos e 'puxa-saqueados' do momento - não pra menos, já que Blueberry Garden ganhou o maior prêmio do último Independent Games Festival (IGF) - mas não podemos esquecer que de jogo desse jeito tem aos montes, o que me entristece de certa forma.

Vamos ao ponto: em Blueberry Garden você é um... Pássaro humanóide de chapéu (?) que precisa... Desligar a torneira do mundo e chegar à lua (??). Até aí tudo bem. Suas habilidades são: planar, agarrar itens e criaturas, comer alguns deles - resultando em alterações nas suas habilidades, como mudar o terreno ou respirar debaixo d'água - e voltar pro ponto inicial do mundo via teletransporte. Até aí também tudo bem. Seu obstáculo é a água que a torneira despeja - que está afundando o mundo e tornando impossível coletar os itens que você precisa pra chegar até à torneira. Tudo bem. Agora assista ao vídeo:



A descrição e a premissa que eu escrevi é literalmente como o jogo funciona nas mãos do jogador. Você é realmente um homem-pássaro estranho que pega coisas pra tentar chegar num lugar mais alto. Só isso. Isso não está nada bem. É muito superficial para conseguir ser divertido. Não acontece mais nada além disso, você não experiencia nada surpreendente. Tudo se resume, ao que o próprio autor aclama, a um jogo de exploração. A única coisa que aparece entre a premissa e o objetivo são alguns puzzles a serem resolvidos para conseguir alguns itens. Só que até nesse aspecto ele consegue ser mal feito, já que é 8 ou 80: ou você entende de primeira o puzzle - como comendo a estrela te fazer respirar debaixo d'água, revelando a resolução de pelo menos metade dos puzzles - ou você faz que nem eu e só entende vendo um vídeo que inocentemente pra que serve tal item. Porque até então, eu não tava entendendo o porquê do nome "Blueberry". Só fui descobrir vendo o tal vídeo, que comendo a frutinha azul faz você não só planar, mas planar para cima, chave pra você conseguir desligar a torneira ou chegar à lua (até agora não comprei esses objetivos...).
E tudo isso acompanhado de músicas suaves e agradáveis, que são acionadas assim que você parte para uma nova exploração.

A maldição foi lançada. E muitos jogos indie estão sucumbindo a ela.
Jogos que complicam muito seu conceito, explicam pouco, fundam um estilo visual único porém alternativo, usam músicas inesperadas ou 'bonitinhas' e esquecem de ser divertidos ou desafiadores.

Tudo bem o protagonista ser daquele jeito, a premissa ser daquele jeito, os objetivos e os obstáculos serem daquele jeito em Blueberry Garden. Mas do que adianta se, enquanto jogo, repito, enquanto JOGO, não é divertido. Olhe por exemplo World of Goo e seu universo simpaticamente distorcido, complicado e alternativo. E nada disso importa porque no fim ele é divertido. E não sou só eu que acha isso!

Aí temos esses produtores belgas que fizeram The Path e The Graveyard. A mesma coisa: personagens distorcidos (soltam frases sem sentido frequentemente), arte única porém alternativa (só chegando no final de uma 'fase' pra entender), narrativa que te faz achar um drogado (lobo mau que nunca aparece na forma de lobo, mas sim de um lenhador ou um homem pelado-brilhante-flutuante), itens uns mais malucos que os outros (urso de pelúcia com duas cabeças?!) e nada divertido. Ah claro, ele traz uma experiência única (é, senti uns calafrios jogando)... Mas não é divertido.



Sem falar em The Graveyard, que se trata de uma velha andando no cemitério, senta num banco e fica lá, enquanto uma música toca (alemã? Francesa?), e que ao preço de US$5, pode morrer a qualquer momento. Chega a ser uma piada (ganhei de aniversário via Steam e rilitrus, mais que quando eu tentei explicar o jogo a um amigo, que foi o mesmo que me deu).

E é muito, mas muito triste saber que esses jogos estão sendo aclamados pelas próprias comunidades em que estão inseridos, se pá até nas mídias mais populares. Blueberry Garden ganhando a IGF, The Path com uma nota inacreditavelmente alta no metacritic (80) e The Graveyard ganhando artigo na Wired. O que acontece com essas pessoas? Será que esqueceram de que um jogo, no matter what, precisa ser divertido? Estão cegos pela euforia de que jogos indie precisam ganhar espaço e estão jogando fora necessidades básicas de um jogo?


... Mas o que mais me entristece mesmo é que essa maldição foi provavelmente começada, no mínimo reforçada, com Braid, jogo que eu acho absolutamente formidável. Um jogo em que você é um cientista/engenheiro ruivo Super Deformed (corpinho + cabeção) de terno e gravata (?) que consegue voltar no tempo (??) e precisa salvar uma princesa num mundo de sonhos (???). Mas nenhuma dessas características estranhas importa, pois Braid é sem dúvida alguma divertido. Não só isso, mas desafiador. E, pros mais cultos, é prato cheio de conceitos como relacionamento, bomba atômica, arrependimento, perdão etc.

Aí chegam esses Indies, todos na 'vibe' do Braid, querem ser parecidos e esquecem daquele detalhe. E por isso são uma merda.